terça-feira, 12 de maio de 2015

E aí? Vai lecionar o que?

Eu penso que todos deveriam ser professores. Não digo isso porque sou professora. Tá bem! Eu digo isso porque sou professora e sei do que estou falando.  Juro que o magistério nunca foi o objetivo, mas a vida me jogou numa sala de aula aos 17 anos, quando comecei minha carreira lecionando para escola técnica.  Sim... adolescentes! E eu outra adolescente só que um pouco mais madura (só um pouquinho... Rs). Enquanto minhas colegas estavam a noite em casa assistindo a novela, eu estava em uma sala de aula ensinando o pouco que sabia. Não! Péra! Eu não estava ensinando... Eu estava era aprendendo.  Diversos estudos apontam que a melhor forma de aprender é ensinar. É sério! Se tem dúvidas, joga aí no Google: A pirâmide do aprendizado. De acordo com esse estudo, ao utilizarmos a leitura como método para aprender, retemos 10% do conhecimento, enquanto ao ensinarmos o percentual salta para 85%. Quer evidências? Então me responda: o seu professor chegava na sala de aula e cuspia qualquer conteúdo? Sem nenhum material? Sem nenhum planejamento? Ok! Alguns colegas fazem isso mesmo, mas vamos pular porque são exceções. E você que respondeu sim, foi logo buscar um exemplo desses para me contradizer. Certamente a maioria dos seus professores chegou bem preparado na academia. E, sem dúvidas, não foi só com o conhecimento que tinha na cabeça. Só com o conhecimento adquirido na universidade. Nada disso! Ele se preparou. Ele desenvolveu estratégias para transmitir esse conhecimento. Ele preparou o discurso. Ele se preparou para ensinar. E aí, como resultado, quem aprendeu foi ele. Os alunos também, mas ele aprendeu mais. Que outra profissão conseguiria arrancar de mim a timidez da adolescência? Aumentar o volume da minha voz? Sim, eu já falei baixo um dia na vida. Atualmente, depois de 21 anos de carreira (NÃO FAÇAM CONTAS DA MINHA IDADE! ESTÃO PROIBIDOS!) uso tudo que aprendi em sala de aula, na minha outra atuação profissional. Além de professora universitária, atuo no mercado de Tecnologia da Informação (TI). Palestra para 100, 200 ou 300 profissionais no auditório da empresa, me dá um frio na barriga sim, não nego, mas não é diferente do meu primeiro dia de aula quando olho para turma e vejo 92 alunos ávidos por conhecimento. Certo... Muitos nem tão ávidos assim, mas me iludo acreditando nisso. Quer desafio maior do que ter que explicar o mesmo assunto cinco vezes porque o aluno não entendeu da primeira vez, nem da segunda, nem da terceira? Então quando vou para uma reunião e não me faço entender, respiro fundo e busco alternativas para isso. Vejam bem! Não digo que meus colegas de TI que não são professores não possuem habilidades como essas. Não. Não. Muitos possuem até muito mais. O que pretendo com esse texto é demonstrar que quando precisamos ensinar (seja algoritmo, seja xadrez, seja corte e costura) precisamos colocar pra fora habilidades que certamente possuímos e que não usamos por não ter necessidade. E o que ganhamos com isso? Sim, dinheiro também (a não ser que seja um trabalho voluntário, o que é ainda mais lucrativo, se é que me entendem! Se ganha ainda mais ajudando o próximo!). Mas ganhamos principalmente na nossa formação quanto ser humano. Ter humildade para ouvir a dúvida do próximo calado e esperar a sua vez de falar. Conseguir transmitir uma informação com clareza. Seja capaz de criar estratégias para sair de uma situação desconfortável (comumente chamado de “ter jogo de cintura”). E, acima de tudo, se sentir realizado ao entrar numa reunião e se deparar um profissional que já foi seu aluno e saber que tem um pouquinho de você bem ali... Trabalhando junto! Em parceria! Isso realmente não preço.

E aí? Vai lecionar o que? 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Unhas rosas. Eu não gosto, mas e daí?



Manicure. Na hora do almoço. Tem que ser corrida. Não pode perder tempo. Então já vou em mente a cor da semana para ir adiantando o serviço. As minhas opções se limitam a Black, Café, Black com Rebú, Café com Rebú, Jabiticaba e, no máximo, quando quero inovar... algum tom de vermelho (escuro). É possível notar que não curto cores claras para esmalte? Então... Adentro o recinto me despedindo do esmalte Jabuticaba e dando as boas vindas para o... deixe-me ver... huuummm... Essa semana quero um vermelho. Fechado. Tendendo pro vinho. Escolho, escolho, escolho e... bingo! Esse aqui. Pergunto: esse meio cintilante, pode ser usado sozinho? Ela responde: Sim, pode. Ótimo, penso eu, então vai ser esse. Ela, não conformada com a minha rápida decisão, pega um esmalte rosa e pergunta: Você não quer esse? Não, obrigada. Não gosto de rosa. E esse? Não gosto de esmalte claro. E esse? Esse é rosa claro. Não gosto de rosa, nem de esmalte claro. E esse? (outro rosa) Me limito a responder: Não. E esse? Não. E esse? (Penso: ela entendeu que não gosto de rosa? E esmalte claro?). Unha pronta para esmaltar. Ela saca um esmalte qualquer que nem vi o nome e me fala: Vou passar esse de base. Mas você não disse que o esmalte que escolhi poderia ser utilizado sozinho? Disse, mas esse de base vai ficar melhor. Mas... Desisto de argumentar. Deixa pra lá. Ela da uma pincelada do esmalte, pega a acetona, tira o esmalte, devolve para o mostruário, e pega outro. Esmalta rápido quatro unhas. Por que você trocou de esmalte (pergunto)? Porque o outro (que ela havia escolhido e não eu) estava no final e muito grosso. Esse aqui é lindo. E eu: Mas é rosa. E ela: Mas é lindo!
Ok! Me rendo! Desisto! Unhas rosas por uma semana.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Meu inseto favorito!

Escuto barulhos. Barulho de papel. Alguém remexendo em papel. Mas como? Somente eu estou nesse carro e estou dirigindo. Putz!!!! É um bicho. O barulho está vindo da porta do carona. Ele está dentro do porta treco da porta do carona. É uma barata. Tenho certeza!!! E se ela voar? E se ela voar pra cima de mim?? Pode ser um besouro. Ele também voa (não voa?). Preciso parar esse carro e arrancar esse bicho daqui. Preciso de coragem para isso. Preciso parar. Preciso parar. Preciso parar!!! Cadê o acostamento??? Bendita Linha Vermelha sem acostamento. Engarrafamento. Nunca pensei que fosse agradecer pelo engarrafamento de todo dia! Paro. Abro a porta. O bicho não aparece. Ah ele vai ter que sair. Desço do carro. Fico de olho procurando o infeliz. O motorista do carro ao lado pergunta: Precisa de ajuda? Tem um inseto no meu carro. Você o viu? Não, mas ouvi. Onde ele está? Aqui na porta. Graças a Deus é a mão dele que está ali e não a minha. Graças!!! Então, ele com algo nao mão que o pavor me impedia de olhar, revela: aqui só tem um cupom fiscal e uma bolinha de borracha. Vai ver quando você anda, a bolinha rola por cima do papel e faz um barulho parecido com o de um inseto. Deve ser isso... Que vergonha! Que alívio! Agradeço ao senhor que eu nem perguntei o nome e sigo tranquila, junto com o meu inseto não voador bola de borracha.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Era uma vez um amendoim...



Quem me conhece sabe que  sou enjoadinha para comer a beça. Não como qualquer coisa, não bebo qualquer coisa, não como em qualquer lugar (ok! Tem meia dúzia de pés sujos que fogem a essa regra). E consumir algo dessas barraquinhas de rua então... Aff! Não dá. Tá certo! Meu passado me condena. Já comi churrasquinho de gato na Pavuna, já comi podrão (cachorro-quente) da tia da esquina, mas tudo passado... Envelheci (e velho é cheio de manias) e me tornei mãe (e mãe tem que se cuidar porque não pode morrer). Pois bem. Hoje, euzinha voltando do trabalho,tomo um “tapa” no nariz com o cheiro daqueles amendoins açucarados que só vendem na rua. Pelo menos eu só vejo na rua... Sempre que passo por essas barraquinhas penso: “Que cheiro bom!”, e quando olho para o “recinto” penso: “Que nojo! Rua, poeira, mão suja, unha, cabelo, nojo nojo nojo! Nem de graça.”. Mas hoje foi diferente. Passei, senti o cheiro e, seguindo a orientação das amigas (não vou citar nomes, elas que se acusem!), falei para a Giselle de dentro de mim: “Cara, você precisa de anticorpos. Todo mundo come e está vivo. Logo você vai comer e vai morrer? Coragem! Lembra do lema do dia? FFF (Força, Foco e Fé). Tenha fé. Vá em frente”. E fui. Pedi o amendoim crocante, cheiroso e quentinho. A tia me pergunta se é para viagem. Claro que não. Se não perco a coragem. De posse da minha aventura, paro no semáforo (em plena Presidente Vargas) esperando para atravessar e sou abordada por dois pivetes. Pelo menos tinham cara, pinta e linguajar de pivete. Eles pararam do meu lado e eu gelei. Pensei: “Perdi. O que tem na minha bolsa mesmo? Aff. Maquiagem, documento do carro, minha carteira. Quanto de dinheiro que tenho? Aff aff aff”. Aí um dos sujeitos vira e diz: “Coé tia! Paga um amendoim pra rente!”. Vários erros nessa frase: 1- Coé é a mulher do garfo. Respeito comigo! 2- Tia não porque não sou irmã da sua mãe. 3- Pago não porque você quer que eu tire minha carteira do bolso para pegar meu dinheiro. 4-Rente é junto, se você não sabe. Claro que isso foi a Giselle do meu interior que falou para ela mesmo. Eu falei para ele: “Claro meu filho. Toma esse aqui que está quentinho!”. Sinal  verde para mim. Cheguei do outro lado mais rápido do que uma flecha. Mas deu tempo de ouvir: “Pô! Tia legal!”.
Moral da história (sim! HISTÓRIA, porque aconteceu de fato!): Eu não devo comer essas porcarias na rua. Sinal divino.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Perdida em Mesquita



Acreditem: é possível se perder em Mesquita. É possível que uma pessoa que mora em Mesquita se perca em Mesquita. Ok! Essa pessoa sou eu. Ok, de novo! Não tenho mesmo senso geográfico. Mas, na boa... não sabia que o meu município era “tão” grande. Eu não sabia nem que tinha Detran aqui. Pronto! Descoberta feita, CNH renovada, vamos lá buscá-la. Sim, buscá-la. Podemos então concluir que era, pelo menos, a segunda vez que estive naquele lugar. Me perdi na primeira vez (na ida de na volta). Dessa vez, me perdi somente na volta. Entro numa rua, saio em outra, e em mais outra sem saída. Volto tudo (ou parte do tudo), entro em outra rua e resolvo perguntar. Vou lembrá-los que o meu carro é estilo “do bonde”. Preto, filmado, mala que cabe um corpo. Paro em frente  a uma oficina com três homens. Eles devem estar devendo para alguém, porque ficaram bem assustados quando parei. Abaixo o vidro e falo com uma voz bem branda: “Bom dia senhores! Poderiam me informar como pego a Dutra sentido Rio?”. Eles se entreolham. Mudos. Aí um vira para o dois e diz: “Não, por ali é difícil para ela.”. Oi? Ali onde? Ele não falou ainda... Como pode saber se difícil para mim? Por que difícil para mim? Aff! Aí o três vira para mim e manda: “A senhora vai para o seu lado. Segue segue segue e vai indo. Quando chegar lá na frente a senhora vira.” Ah tá! Obrigada. Eu fui. Para o meu lado (entendi que era o esquerdo) e parei para pedir informação novamente. O senhorzinho me respondeu: “Esquerda, direita e esquerda de novo”. E lá estava ela me esperando. Via Dutra. E foi então que eu me perguntei: “Por que mesmo que eu não liguei o GPS?”.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Vamos cambiar?


Viajar. Ah!!! Viajar!!! Adoooro!!!! Mas o período pré-viagem exige cuidado, atenção e muito trabalho. Tudo para a viagem se concretizar um sonho e não um pesadelo. Tem quem prefira comprar um pacote de viagens com uma agência de turismo. Eu prefiro providenciar tudo sozinha. Daí a viagem já começa antes do embarque. Uma série de itens tem que ser providenciada: passagem aérea, hotel, locais a serem visitados, restaurantes para refeições, vacinas (sempre que necessário), fuso horário, moeda local, e por aí vai. A moeda então é um  caso a parte. Quando você viajar para Brasil, esquece. Um item a menos. Só tem que se preocupar com a diferença de preços entre as regiões. Agora se a viagem é para outro país, bate aquela dúvida: que moeda eu levo? Será que lá aceitam reais? Devo levar dólares? Obviamente se a moeda local é dólar, você vai levar dólar. Se a moeda local é euro, você vai levar euro. Mas e se for peso (argentino, chileno, uruguaio, filipino, mexicano, colombiano), Teca, Tenge, Lev, Metical, Balboa (não estou falando do Rocky, e sim da moeda do Panamá!) ou Novo Sol? Minha estratégia: levo alguns reais (vai que aceitam?!), alguns dólares americanos (sempre aceitam) e um travel card (podendo ser em dólar ou euro, visto que o saque é feito em moeda local). Acho mais seguro distribuir assim porque não corro o risco de não conseguir sacar da minha conta corrente e nem levar um susto com a cotação do dia do fechamento da fatura do cartão de crédito. E justo por conta do câmbio para a minha próxima viagem que estou escrevendo este texto. Chegamos à casa de câmbio e, curiosamente, estava com o balcão repleto de “cambiadores” (mais uma palavra inventada por mim, eu acho!). Pensei: ‘Nossa! O povo está viajando mesmo. Já vim aqui nesta mesma casa de câmbio em outras ocasiões e sempre entregue as moscas... ’. Um senhor me atende. ‘Por favor, qual a cotação do dólar para compra?’. Ele me informa e eu peço uma quantia, digamos... nem muito, nem pouco. Ele vira e rapidamente nos encaminha para uma cabine. Oi? Cabine? Eu e meu marido?. ‘Sim senhora, fique na cabine, por favor, e prepare a quantia que já trago os dólares’. Puxa! Me senti ‘a endinheirada’. Olhei o povo  no balcão e pensei: ‘seus pobres! Nem mandaram vocês para cabine!!’. Cabine quente. Apertada. Nós dois suando... Falei para o Fabio: ‘estamos de castigo? Somos feios? Ele pensa que vamos assustar ou roubar alguém e nos colocou aqui? Cadê ele que não volta com essa mixaria de dólares?’ E aí bateu o medo. Cara! Neguinho vai pensar que estamos cheios de dinheiro com esse circo todo e vão nos seguir, sequestrar, bater e roubar. E quando descobrirem que esse trabalho todo foi por conta de tão pouco, vão bater mais e nos desovar a gente em algum lugar. Caraca!!! Medo medo medo!!! E no meio da paranoia olho para baixo e o que eu vejo? Uma cabeça de alho atrás da porta. Uma cabeça de alho atrás da porta??? Sim!! Uma cabeça de alho atrás da porta. Cara, faz algum sentido para alguém? Se fosse uma loja perto de uma feira livre, poderia ter caído de algum carrinho, mas na Av. Rio Branco? Mostrei para o Fabio e, como já era de se esperar, comecei a rir. Sabe aquelas crises de riso que parece não ter fim? Fora de controle? Que você quer parar e não consegue? Meu marido falou: ‘Giselle, para que você esta ficando roxa!’. E nada. ‘Giselle, para que o homem vai voltar e você vai estar assim?’. E eu? Com a cabeça baixa, debruçada sobre a mesinha da cabine rindo, rindo, rindo, meio desesperada com a aquela situação toda. Pronto. Me controlei. Parei de rir. Cheia de lágrimas nos olhos e no rosto, mas sem rir. Entra o homem com os dólares e mando eu: ‘agora quero um travel card em Euro’. Ele: ‘Euro?’. Com os dólares na mão. ‘Você quer euro ou dólar?’. Ai meu padim padi ciço... Se eu quisesse travel card em dólar, teria pedido em dólar. Se eu pedi em euro, é porque quero em euro. Respirei fundo, olhos nos olhos do senhor para não correr o risco de olhar para baixo, dar de cara com o alho e ter outra crise de riso. Euro. Eu quero travel card em Euro. Ele fez uma cara de quem não entendeu bem, e me perguntou: ‘Vai ficar no seu nome ou do seu filho?’. Filho??? Oi??? Como ele sabe que eu tenho filho? Eu não falei isso para ele... Um abismo entre eu e o olhar dele... Aí ele, disposto a me irritar (só podia ser isso), ele aponta para o meu marido e manda de novo: ‘Ele não é o seu filho?’. PARA TUDO!!!! Para quem não conhece, o meu marido é DOIS longos nos mais velho do que eu. DOIS anos e  DOIS meses. INTEIROS!!! Acho que lancei o meu olhar mais aterrorizante para ele. ‘O QUE? O SENHOR ESTÁ LOUCO? ACHA QUE EU TENHO IDADE PARA SER MÃE DE UM MARMANJO DESSE? ELE É MEU MARIDO!!!!’. Fabio já em crise, segurando o ombro o senhor. ‘É melhor o senhor parar e não tentar se explicar. Depois vai sobrar pra mim!!’. O homem todo desconcertado: ‘Desculpe! É que eu estou olhando para a senhora e nem olhei para cara dele’. Como assim? Me orienta a entrar na cabine com um homem e nem olha para cara dele? E se fosse um assaltante? E se fosse um bandido? E se... E se... E ainda me diz que é meu filho? Homens, atenção!! Dica de sobrevivência. Na dúvida, não diga nada. ‘Ele’ pode ser o filho, pode ser o marido, pode ser o irmão, pode ser qualquer coisa. Agora, se você chutar, e chutar errado, quem pode ganhar um chute é você!!! Aff!! Por quê eu não chutei ele? Por quê? Por quê? Da próxima vez que precisar cambiar eu volto lá com o meu filho e vou falar para ele: ‘Senhor, eu quero dólares e também quero lhe apresentar O MEU FILHO!’. E se alguém encontrar esse senhor para aí, me façam um favor: digam que a cabeça de alho não vai funcionar se ele não colocar urgentemente um par de óculos. Vai que alguém tem um reflexo melhor que o meu e chuta ele?! Vai que...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O dia em que morri


O primeiro surto aéreo, ninguém esquece!

Não, eu não me orgulho disso. Mas publico o relato do meu primeiro (e espero que único) surto em pleno voo, pois graças a este acontecimento, e apesar de ter sido uma das experiências mais estranhas que já tive na vida, me fez ver a vida outros olhos.
Dia estressante. Em São Paulo. Longe da família. Filho sozinho em casa com o pai. Pai sozinho em casa com o filho. E a mãe/esposa longe sem poder cuidar dos dois. Mãe ligando às 6h da manhã avisando que o grande companheiro canino de quase 15 anos esta partindo para outra jornada. Reunião na IBM para análise de um modelo de dados com cerca de 100 objetos.Dia tumultuado. Tarde tumultuada. Chegada ao aeroporto com 2 horas de antecedência e impossibilitada, pela companhia aérea, de adiantar o vôo. Tensão. Muita tensão. As horas não passavam. E tudo que eu queria era chegar em casa e dar um último carinho para o meu filhote. Não sabia se ele realmente ainda estava vivo e precisava vê-lo, independente da situação. Eis que consigo embarcar e sinto um cheiro de queimado. Aí começa a minha mente criativa a trabalhar...
Chamo a comissária. “Está um cheiro de queimado lá na frente.” “Não senhora, não tem cheiro nenhum, a senhora deve ter se confundido porque estamos abastecendo”. Estão abastecendo? E tem cheiro de queimado? “Então comissária... justo por isso... não pode ter cheiro de queimado... explode!” Ela replica que está tudo certo e qualquer coisa me avisa. Me avisa? Se estivermos mortas vai me avisar como?O comandante avisa que estamos prontos para partir, mas precisam retirar a bagagem de dois passageiros que despacharam, mas não embarcaram. Por que não embarcaram? Por que? Só pode ser porque sentiram o cheiro de queimado e se recusaram a voar. Vão se salvar. Era o que eu deveria fazer...
A aeronave começa a taxiar. Barulho de cartolina sacudindo ao vento. Barulho de cartolina? What porra is that (me desculpem pelo palavrão, mas foi exatamente o que pensei)????? Já sei. Já entendi tudo. Por isso a CPM não expediu a passagem da minha colega de projeto. Pedimos as 3 viagens no mesmo email. Por que expediram as minhas 3 passagens e somente 2 dela? Por que chegou a MINHA HORA e não a dela.Vou morrer! Tenho 100% de certeza que vou morrer. Estou voando para morrer.E meu filho tão pequeno... (mas ele tem um ótimo pai e uma família que lhe dá total apoio). E a minha mãe, vai sofrer tanto (um filho não pode morrer antes dos pais... não pode). E o que será que o Fabio vai fazer o dinheiro do seguro? (tomara que ele pague logo o carro). Vou morrer. Vou morrer. Vou morrer. É. Posso morrer. Eu fiz TUDO o que queria fazer na vida (é por isso que não pode fazer tudo o que quer... quando o fizer, tem inventar outra coisa para fazer, se não você morre!). Trabalhei demais (mas e daí? Eu amo trabalhar... workaholic assumida, morrer trabalhando não é o que há!). Vou morrer. Vou morrer. Vou morrer.
Ah! Esqueci de mencionar que estava chorando. Não aos prantos (eu acho), só lágrimas rolando.
Turbulência. Turbulência??? Com esse tempo ótimo no RJ e em SP, que porra de turbulência é essa? Ah, lembrei! É a morte. É agora. Sacode. Sacode. Sacode. E para. Que paz... Que maravilha... Então realmente é assim que se morre. Você está vivo em um segundo, atravessa um portal e morreu. Estou morta.Escuto uma vozinha lá lá lá no fundo: “A senhora aceita?”. Penso:”Aceito?”. A vozinha insiste: “Aceita senhora?”. Eu:”Aceito? Quem? Jesus?” (afinal de contas, estou morta). “Aceito Jesus! Eu te aceito!”. Estava só pensando (eu acho). Não falando, só pensando (espero... mas meu marido que me conhece a quase 20 anos jura que eu deveria estar aos berros). E vozinha vira um vozeirão e grita comigo: “SENHORA! Aceita bebida?”. Abro bem os olhos e vejo a mesma comissária do cheiro de queimado com o carrinho de sucos e refris a minha frente. Penso:”Bebida? Estou viva? Sim. Estou viva!! Graças a Deus Senhor!! Estou viva!” “Um suco de laranja por favor”. É o máximo que consigo responder.
Hoje, duas semanas depois da minha morte (pois eu tinha plena certeza que estava morta), vejo minha vida por outro prisma. Vou continuar trabalhando muito (porque gosto!), vou continuar viajando muito (porque não levei comigo os bens que possuo, e sim o que vi e vivi), terei mais paciência com o próximo (eu vou tentar pelo menos) e vou declarar aos sete ventos, todos os dias,que a vida VALE MUITO A PENA para ser desperdiçada com bobagens. Tem que ser, de FATO, vivida ao lado das pessoas mais importantes da sua vida.Isso é o que vale a pena. Obrigada Deus, pela oportunidade de dizer aos MEUS e as MINHAS o quanto são importantes na minha vida. Obrigada Deus pela oportunidade de continuar participando desta louca e eletrizante experiência que é viver!!!!
Obs.: Sim. Eu estava pura!