quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O dia em que morri


O primeiro surto aéreo, ninguém esquece!

Não, eu não me orgulho disso. Mas publico o relato do meu primeiro (e espero que único) surto em pleno voo, pois graças a este acontecimento, e apesar de ter sido uma das experiências mais estranhas que já tive na vida, me fez ver a vida outros olhos.
Dia estressante. Em São Paulo. Longe da família. Filho sozinho em casa com o pai. Pai sozinho em casa com o filho. E a mãe/esposa longe sem poder cuidar dos dois. Mãe ligando às 6h da manhã avisando que o grande companheiro canino de quase 15 anos esta partindo para outra jornada. Reunião na IBM para análise de um modelo de dados com cerca de 100 objetos.Dia tumultuado. Tarde tumultuada. Chegada ao aeroporto com 2 horas de antecedência e impossibilitada, pela companhia aérea, de adiantar o vôo. Tensão. Muita tensão. As horas não passavam. E tudo que eu queria era chegar em casa e dar um último carinho para o meu filhote. Não sabia se ele realmente ainda estava vivo e precisava vê-lo, independente da situação. Eis que consigo embarcar e sinto um cheiro de queimado. Aí começa a minha mente criativa a trabalhar...
Chamo a comissária. “Está um cheiro de queimado lá na frente.” “Não senhora, não tem cheiro nenhum, a senhora deve ter se confundido porque estamos abastecendo”. Estão abastecendo? E tem cheiro de queimado? “Então comissária... justo por isso... não pode ter cheiro de queimado... explode!” Ela replica que está tudo certo e qualquer coisa me avisa. Me avisa? Se estivermos mortas vai me avisar como?O comandante avisa que estamos prontos para partir, mas precisam retirar a bagagem de dois passageiros que despacharam, mas não embarcaram. Por que não embarcaram? Por que? Só pode ser porque sentiram o cheiro de queimado e se recusaram a voar. Vão se salvar. Era o que eu deveria fazer...
A aeronave começa a taxiar. Barulho de cartolina sacudindo ao vento. Barulho de cartolina? What porra is that (me desculpem pelo palavrão, mas foi exatamente o que pensei)????? Já sei. Já entendi tudo. Por isso a CPM não expediu a passagem da minha colega de projeto. Pedimos as 3 viagens no mesmo email. Por que expediram as minhas 3 passagens e somente 2 dela? Por que chegou a MINHA HORA e não a dela.Vou morrer! Tenho 100% de certeza que vou morrer. Estou voando para morrer.E meu filho tão pequeno... (mas ele tem um ótimo pai e uma família que lhe dá total apoio). E a minha mãe, vai sofrer tanto (um filho não pode morrer antes dos pais... não pode). E o que será que o Fabio vai fazer o dinheiro do seguro? (tomara que ele pague logo o carro). Vou morrer. Vou morrer. Vou morrer. É. Posso morrer. Eu fiz TUDO o que queria fazer na vida (é por isso que não pode fazer tudo o que quer... quando o fizer, tem inventar outra coisa para fazer, se não você morre!). Trabalhei demais (mas e daí? Eu amo trabalhar... workaholic assumida, morrer trabalhando não é o que há!). Vou morrer. Vou morrer. Vou morrer.
Ah! Esqueci de mencionar que estava chorando. Não aos prantos (eu acho), só lágrimas rolando.
Turbulência. Turbulência??? Com esse tempo ótimo no RJ e em SP, que porra de turbulência é essa? Ah, lembrei! É a morte. É agora. Sacode. Sacode. Sacode. E para. Que paz... Que maravilha... Então realmente é assim que se morre. Você está vivo em um segundo, atravessa um portal e morreu. Estou morta.Escuto uma vozinha lá lá lá no fundo: “A senhora aceita?”. Penso:”Aceito?”. A vozinha insiste: “Aceita senhora?”. Eu:”Aceito? Quem? Jesus?” (afinal de contas, estou morta). “Aceito Jesus! Eu te aceito!”. Estava só pensando (eu acho). Não falando, só pensando (espero... mas meu marido que me conhece a quase 20 anos jura que eu deveria estar aos berros). E vozinha vira um vozeirão e grita comigo: “SENHORA! Aceita bebida?”. Abro bem os olhos e vejo a mesma comissária do cheiro de queimado com o carrinho de sucos e refris a minha frente. Penso:”Bebida? Estou viva? Sim. Estou viva!! Graças a Deus Senhor!! Estou viva!” “Um suco de laranja por favor”. É o máximo que consigo responder.
Hoje, duas semanas depois da minha morte (pois eu tinha plena certeza que estava morta), vejo minha vida por outro prisma. Vou continuar trabalhando muito (porque gosto!), vou continuar viajando muito (porque não levei comigo os bens que possuo, e sim o que vi e vivi), terei mais paciência com o próximo (eu vou tentar pelo menos) e vou declarar aos sete ventos, todos os dias,que a vida VALE MUITO A PENA para ser desperdiçada com bobagens. Tem que ser, de FATO, vivida ao lado das pessoas mais importantes da sua vida.Isso é o que vale a pena. Obrigada Deus, pela oportunidade de dizer aos MEUS e as MINHAS o quanto são importantes na minha vida. Obrigada Deus pela oportunidade de continuar participando desta louca e eletrizante experiência que é viver!!!!
Obs.: Sim. Eu estava pura!

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